quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ensopado de Peixe


Sexta Feira Santa se aproximando, e com ela a tradição dos pratos a base de peixes.

Isso me faz lembrar a minha infância, e assim deixo minha sugestão, um simples mas saboroso ensopado de peixe, especialidade do seu Nestor (meu pai). Na receita original o peixe utilizado era o “pintado”, mas nesta receita apresentada a seguir, não vamos especificar o peixe, deixando a escolha do pescado para os seguidores do blog, mas lembramos que o melhor é utilizar peixe não escamado, ou seja, peixe com couro.

Ensopado de Peixe

Ingredientes – 4 pessoas

- 8 postas de peixe com pele, com mais ou menos 4 cm de espessura (surubi, pintado, etc);
- 4 dentes de alho picados;
- 4 cebolas cortadas em rodelas finas;
- 8 tomates maduros sem sementes e picados em tiras;
- 1 pimentão médio verde, picado em rodelas finas;
- 1 pimentão médio vermelho, picado em rodelas finas;
- Cebolinha verde (à gosto);
- Salsa (à gosto);
- Coentro (à gosto);
- 6 colheres de sopa de Azeite de oliva;
- 1 cálice de vinho branco seco (opcional);
- Pimenta do reino;
- Sal.

Tempere o peixe com o sal e um pouco de pimenta do reino e reserve por mais ou menos uma hora.
Em uma panela de ferro, ou de barro, pré aquecida, adicione o Azeite de Oliva, refogue rapidamente o alho picado, acrescente em seguida a cebola e o tomate, refogando até a cebola e o tomate soltarem um bom tanto de água, acrescente o pimentão verde e o vermelho e deixe refogar por mais uns 5 minutos, se necessário acrescente um pouco de água quente ao refogado, evitando que queime no fundo da panela. 
Em seguida acrescente as postas de peixe, e com o auxílio de uma colher grande, ou uma concha, cubra as postas de peixe com o refogado, e em seguida acrescente o cálice de vinho branco (opcional), podendo ser substituído por água. 
Deixe cozinhar em fogo baixo por mais ou menos 15 minutos, acrescente a cebolinha verde (à gosto), a salsa (à gosto) e o coentro (à gosto), acerte o sal, e se necessário coloque mais uma pitada de pimenta do reino, tampe a panela e deixe cozinhar em fogo baixo aproximadamente por mais 20 minutos, ou até o peixe estar totalmente cozido.
Leve o ensopado a mesa na panela. Como acompanhamento sugere-se, pão, batas cozidas, salada verde e um bom vinho.
Boa receita e bom apetite.

Uma Feliz e Abençoada Páscoa a todos.

Marco Antônio da Luz.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Inspirado nos versos do saudoso Jaime Caetano Braum, em sua poesia Arroz de Carreteiro, trago uma receita desta comida típicamente utilizada pelos carretiros no tempo das tropiadas.


Para inspirar quem sabe um almoço de sábado, seguem os versos de Jaime e uma receita deste delicioso prato gauchesco.

Arroz de Carreteiro

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de "Carreteiro", meu velho arroz com guisado.

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,
É xarque - arroz - graxa - sal
É água pura em quantidade.
Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.
Alho - cebola ou pimenta, isso conforme a vontade.

Não tem luxo - é tudo simples, pra fazer um carreiteiro.
Se fica algum "marinheiro" de vereda vem à tona.
Bote - se houver - manjerona, que dá um gostito melhor
Tapiando o amargo do suor que -
às vezes, vem da carona.

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,
É onde se corta o guisado ligeirito - com destreza.
Prato rude - com certeza,
mas quando ferve em voz rouca
Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

Ah! Que saudades eu tenho
dos tempos em que tropeava
Quando de volta me apeava
num fogão rumbeando o cheiro
E por ali - tarimbeiro, cansado de bater casco,
Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,
Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,
Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia
Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

Por isso - meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Hoje te matam à Mingua, em palácio e restaurante
Mas não há quem te suplante,
nem que o mundo se derreta,
Se és feito em panela preta, servido em prato de lata
Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate -amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um "Carreteiro" fervendo. 
(Jaime Caetano Braum)


Vamos a Receita - Ingredientes para 5 a 6 pessoas
 
- Charque - 500 gramas;
- Arroz - 3 xícaras;
- Óleo - 1 colher de sopa;
- Sal - à gosto;
- Alho - 4 dentes;
- Cebola - 3 médias;
- Pimenta - à gosto;
- Manjerona - à gosto;


Modo de Preparo

Preparo do charque: picar em cubos pequenos e de salgar, para isso deixe de molho na água da noite pro dia, trocando uma vez a água, ou em uma panela, ferva o charque, sem acréscimo de água, somente tirando o excesso de água que o charque vai largar;

Após, ou durante o "ritual" de de salga do charque, descascar e picar os dentes de alho e as cebolas, em cubos, e reservar;

Em uma panela de ferro, bem quente, acrescentar o óleo, e fritar o charque, se o charque for magro pode se necessário acrescentar um pouco mais de óleo. Depois de fritar o charque, acrescentar o alho e a cebola e deixar dourar; 

O passo seguinte é acrescentar o arroz, e fritar por uns 5 minutos, sempre em fogo alto; Na sequência acrescentar água fervente, deixando de 2 a 3 dedos acima do arroz, e diminua o fogo; 

Experimente o sal, se necessário acerte o sal, acrescente uma pitada de pimenta (à gosto), e acrescenta Manjerona picada (à gosto).

Tampe a panela e deixe cozinhar até secar toda água acrescentada, cuidando também o ponto do arroz;

Vale lembrar que no verdadeiro Arroz de Carreteiro o arroz deve ficar bem cozido e soltinho, nada de "molho" neste prato.

Um forte abraço a todos!!!
Marco Antônio (Tonho)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Um pouco da história da culinária do Rio Grande do Sul

A natureza do Brasil ofereceu, tanto a seus habitantes primitivos como aos colonizadores (que, aqui aportaram) grande variedade de alimentos. Outros aclimataram-se, por introdução dos portugueses, ao fazer roças, hortas e fomentar criações domesticas (galinhas, porcos, ovelhas, cabras, gado vacum). 

Especiarias, sal, açúcar foram valiosas contribuições trazidas pelo português à cozinha brasileira.

Segundo Câmara Cascudo (História da Alimentação no Brasil) “todos os pratos nacionais são resultantes de experiências construídas lentamente, fundamentadas na observação e no paladar. Maneiras de preparar a comida, receitas, utensílios empregados, tudo mesclou-se e adaptou-se às possibilidades do meio.

Heranças ameríndias, bem como africanas, transformaram-se, ajustaram-se ao tempero e ao sabor portugueses, às exigências dos utensílios da cozinha européia, ao fogão, ao forno. Inúmeros pratos conservam, ainda, nome indígena ou africano; mas quase nada existe de autentico na substância real.

Quanto a outras influências, observa o autor citado: “...houve um processo da aculturação continuo na cozinha brasileira que ainda não terminou, pois está sendo enriquecido por inúmeros grupos migratórios.

As influências na Gastronomia Gaúcha 

Na alimentação do sul-rio-grandense, além das contribuições dos colonos de várias etnias, verifica-se a introdução de pratos internacionais, especialmente em área urbana, em restaurantes diferenciados.

Para o estudo da cozinha gaúcha, devem-se considerar as particularidades regionais, que assim são divididas:

- Cozinha Praiana (à base de produtos do mar); 
- Cozinha da Campanha e Missões (predominando as carnes vacum e ovina); 
- Cozinha dos Campos de Cima da Serra (onde o pinhão tem presença e o café com graspa sobrepõem-se ao chimarrão).  

A herança indígina 

A herança indígena para a culinária gaúcha é percebida quando da utilização da mandioca e de seus produtos (farinha, tapioca, beju, pirão, mingau), o uso do milho assado, cozido e seus derivados (canjica, pamonha, pipoca, farinha) também é uma evidência desta herança, bem como também o aproveitamento, de plantas nativas (abóbora, amendoin, cara, batata-doce, banana, ananaz).

Esta influênia indígena reflete-se também no cozimento dos alimentos, que era realizado na tucuruva (trempe de pedras), no moquém (grelha de varas) utilizado para assar carne ou peixe, onde o peixe era envolvido em folhas, temos também moqueca e a paçoca de peixe ou de carne (feita no pilão).

No que se refere a bebidas, temos como principal raiz o mate, hoje largamente difundido como Chimarrão. 

A influência européia na cozinha gaúcha 

Aproveitando-se das especiarias oriundas da Índia (cravo, canela, noz-moscada) a colonização portuguesa, criou novos pratos, adaptou outros e conservou algumas receitas tradicionais (bacalhoada, caldo verde, acorda, pasteis, empadas, feijoada, cozido, fatias douradas, coscorões, pão-de-ló, papo-de-anjo, sonhos, pães, compotas, marmeladas, frutas cristalizadas, licores. 

Neste sentido a influência lusitana na culinária gaúcha pode ser distribuída pelas regiões gaúchas, como segue: 

- Litoral (com influência açoriana) – peixe assado, grelhados, fervido, desfiado, moqueca de peixe, siri na casca, marisco ensopado, arroz com camarão, camarão com pirão. Pirão de água fria, pirão cozido, farofa, cucus torrado, beju, angu de milho, mingau de milho verde, paçoca de carne desfiada, lingüiça frita, feijão mexido, fervido de legumes, açorda, canja, galinhada, fervido de suquete (osso buco), mocotó, bolo de aipim, pães caseiros, “massas doces” (pão doce sovado) “farte” (pão com recheio de melado), melado com farinha de mandioca, roscas de polvilho, roscas de trigo (fritas), rosquetes, “negro deitado” (bolo de panela), bolo frito, sonhos, omelete de bananas, banana frita, pão-de-ló, sequilhos, rapaduras (com diferentes misturas), pé-de-moleque, “puxa-puxa”, balas diversas, pasteis doces e salgados, doce de panela (de frutas), doce de leite, amobrosia, fatias douradas, bolos, pudins, empadas.
No quesito bebidas encontramos a Concertada (vinho com água e açúcar), a Queimadinha (queimar cachaça com açúcar), os Licores diversos (de vinho, de ovos, de butiá, de abacaxi etc), o Café e o Mate-doce. 

- Depressão Central (influência açoriana e outras) – Canja de galinha, sopas diversas, feijoada, feijão branco, fervido (com legumes e carne), feijão mexido, quibebe, paçoca de favas, arroz de forno, carne de panela, carne assada no forno, bife enrolado, bife à milanesa, guizado de carne, bolo de arroz, pão recheado, empadas, pasteis, “rosinhas” de massa, ovos mexidos, ovos escaldados, “roupa velha” (sobras), peixe recheado, peixe escabeche, peixe frito, bacalhoada, bolinho de bacalhau. Conservas de pepino e cebola. Galinha assada, galinha recheada, arroz com galinha. Pães de forno, pão de panela, “mãe-benta”, biscoitos, “calça-virada”, coscorões, fatias-do-céu, merengues, broas, pudim de laranja, ambrosia de laranja, “manjar celeste”, pudim de pão, “ovos moles”, “fios-de-ovo”, arroz-de-leite, “bom-bocado”, mandolate, balas de leite, de mel, tortas (doces), pé-de-moleque, “farinha de cachorro” (farinha de mandioca com açúcar). No quesito bebidas temos a gemada com vinho, o licor de vinho, os licores com furtas e vinho de laranja.  

- Cozinha da CampanhaCarnes (vacum, ovino) grelhada, no espeto, no forno. Arroz “carreteiro”, espinhaço de ovelha ensopado, pasteis, empadão, feijão, “cabo-de-relho” (sobras). Pães caseiros (ao forno), pão “catreiro” ou “de pedra” (aquecidos sobre pedra ou chapa quente), roscas de milho, “farinha de cachorro”, ambrosia de pão, doces de “panela” (marmelada, e em calda). Bebidas: chimarrão. 

- Cozinha “Serrana” – Carne assada, frita, mocotó, feijoada (de feijão preto e branco), charque com mandioca, paçoca de pinhão com carne assada, couve refogada, couve com farinha, galinha assada, arroz com galinha e quirela de milho, batata-doce, moranga, milho cozido, cuscuz, farinha de biju com leite. Doce de gila, “jaraquatia”, sagu com vinho, arigones, arroz doce, doce de frutas (pêssego, figo, pêra), ambrosia, doce de leite, “chico balanceado” (doce de aipim), doce de batata doce. Bebidas: “Camargo” (café com apojo), quentão de vinho, café com graspa. 

- Cozinha da região Missioneira - Carnes (vacum, ovino) assada no forno, no espeto, grelhada, frita na panela, sopa de lentilhas, sopa de cevadinha, feijoada, “puchero”, “gringa” (moranga) caramelada, pirão de farinha de milho, canja, couve com farofa, matambre com leite, fervido de espinhaço de ovelha com aipim. Canjica, guizado de milho, pasteis, empadão, revirado de galinha, revirado de sobras, lingüiça frita, paçoca de charque, galinha assada. Pão de forno, pão de borralho, bolo frito, biscoitos, pão-de-ló, geléia de mocotó, doce de jaraquatia, pêssego com arroz, arigones, tachadas (marmelo, pêssego, pêra), doce de laranja azeda cristalizada, doce de leite, rapadura de leite, gemada com leite, bolos. Bebidas: chimarrão, mate doce, mate com leite. 

- Colônia alemã Carne de porco (assada e frita), wurst (lingüiça), chucrut (conserva de repolho), nudeln (massa), kles (bolinhos de farinha de trigo com batata cozida), conserva de rabanete, galinha assada, sopa com legumes e ovos, kas-schimier (ricota), kuchen (cuca), leb-kuchen (cuca de mel), mehldoss (doces de farinha de trigo), schimier (pasta de frutas), syrup (frutos cozidos com melado), weihmachts (bolachinhas), bolinhos de batata ralada, pão de milho, de centeio, de trigo, tortas doces. Café colonial (salgadinhos, salames, queijos, bolos). Bebidas: Das bier - cerveja, chop e Spritzbier (gengibirra). 

- Colônia Italiana – Brodo (caldo de carne), carne Lessa (carne cozida n´agua), capeleti (massa com recheio de carne picada) o mesmo que Agnolini, menestra ou aminestra (sopa, canja), galeto a menarôsto ( frango no espeto), ravióli (massa com recheio), tortei (pastel cozido recheado com moranga ou abóbora), macarôn (massa), spagueti (massa cortada), fidelini (massa fina), polenta (angu de farinha de milho), risoto (arroz com galinha e queijo ralado), pizza (massa de pão com molho e queijo), pera cruz (bolo fervido em calda de frutas), pães de trigo e milho, panetone (pão com frutas cristalizadas), salames, queijos. Bebidas: vinho, graspa.

Fonte: http://www.mtg.org.br/gastronomia.html - Por Lílian Argentina Braga Marques e Sônia Campos - Folcloristas